Autismo: o que diz a nova diretriz para diagnóstico e tratamento

A Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI) divulgou recentemente uma atualização das diretrizes nacionais para o diagnóstico e tratamento do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Desde a publicação da primeira versão, em 2021, novos estudos e evidências científicas motivaram a revisão das recomendações para médicos e profissionais de saúde que atuam no cuidado de pacientes com autismo.
O novo documento reforça o papel do diagnóstico clínico, define as abordagens terapêuticas com base científica e alerta contra práticas sem comprovação de eficácia, que podem causar danos físicos, emocionais e financeiros às famílias.

Diagnóstico: observação clínica e contexto familiar

O diagnóstico do autismo continua sendo essencialmente clínico — baseado na observação do comportamento, na análise do histórico do paciente e em entrevistas com pais, cuidadores e professores.
Segundo a SBNI, é possível identificar sinais de alerta ainda nos primeiros meses de vida, como falta de contato visual durante a amamentação, ausência de vocalização ou dificuldade de responder a interações sociais. Esses indícios tendem a se tornar mais evidentes entre 1 e 2 anos de idade.
Outros sinais incluem dificuldade em iniciar conversas, manter trocas sociais, demonstrar emoções e lidar com mudanças de rotina. Movimentos repetitivos e padrões rígidos de comportamento também são características comuns.
Um ponto importante da nova diretriz é o alerta sobre fatores ambientais. Situações de vulnerabilidade social, afetiva e econômica podem afetar o desenvolvimento infantil e levar a diagnósticos incorretos. Além disso, a exposição precoce e prolongada a telas pode gerar sintomas semelhantes aos do autismo — como atraso de fala e dificuldades emocionais —, mas não causa TEA.
A avaliação deve sempre considerar o contexto global da criança e ser feita por equipe multiprofissional, com o apoio de escalas reconhecidas, como a M-CHAT (Modified Checklist for Autism in Toddlers), a CAST (Childhood Autism Spectrum Disorders Test) e o SCQ (Questionário de Comunicação Social).

Nível de suporte e exames complementares

 

Seguindo os critérios do DSM-5 (Manual de Diagnóstico e Estatística de Transtornos Mentais), o nível de gravidade do TEA é definido conforme o nível de suporte necessário: leve (nível 1), moderado (nível 2) ou grave (nível 3).
Essa classificação deve levar em conta a independência funcional e a necessidade de apoio nas atividades diárias.
A SBNI também recomenda exames físicos completos, com avaliação neurológica obrigatória, além de consultas com dermatologista, otorrino e oftalmologista. Exames genéticos podem ser considerados em casos específicos, especialmente quando há histórico familiar ou presença de outras alterações neurológicas.

Tratamento: abordagem transdisciplinar e baseada em evidências

 

O tratamento do autismo deve ter como objetivo potencializar o desenvolvimento e a qualidade de vida do indivíduo. A SBNI reforça que a abordagem transdisciplinar é a mais eficaz, integrando profissionais como médicos, psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas e educadores.
Entre as terapias com maior respaldo científico, destaca-se a Análise do Comportamento Aplicada (ABA – Applied Behavior Analysis), que busca desenvolver habilidades sociais, cognitivas e comunicativas. A ABA pode ser estruturada ou mais naturalista, conforme o perfil da criança e a estratégia do profissional.
Outras abordagens complementares incluem fonoterapia, terapia ocupacional com integração sensorial, terapia motora e música terapia, sempre personalizadas conforme o caso.
A diretriz enfatiza que não existe tratamento único para o autismo. Cada paciente apresenta necessidades diferentes, o que exige uma avaliação individualizada e constante acompanhamento médico.

Uso de medicamentos e manejo de comorbidades

 

Não há medicamentos específicos para o TEA, mas alguns fármacos podem ser utilizados para tratar sintomas associados, como agressividade, irritabilidade, distúrbios do sono e ansiedade.
O uso deve sempre partir de uma avaliação criteriosa, levando em conta as causas e funções de determinados comportamentos — que, muitas vezes, estão ligados à dificuldade de comunicação ou à busca por atenção.
Para os distúrbios do sono, por exemplo, a diretriz recomenda priorizar medidas comportamentais, como higiene do sono, reforço positivo, redução de estímulos e educação parental. O uso de melatonina só deve ser considerado em casos específicos e com acompanhamento médico.

Abordagens sem eficácia comprovada: alerta para práticas não científicas

A SBNI reforça um alerta importante: muitas terapias têm sido divulgadas nas redes sociais como “alternativas eficazes” para o autismo, mas não possuem comprovação científica.
Entre as práticas desaconselhadas estão:
  • Dietas sem glúten ou sem caseína (sem diagnóstico de intolerância ou doença celíaca)
  • Ozonioterapia
  • Transplante fecal
  • Uso de vitaminas e suplementos sem deficiência comprovada
  • Leuprorrelina, MMS, oxitocina, imunoglobulina, células-tronco e florais
  • Canabidiol e ácido folínico sem indicação formal ou estudos conclusivos

 

Essas terapias não só carecem de evidências, como podem representar riscos à saúde e atrasar o tratamento eficaz. Além disso, muitas famílias acabam abandonando intervenções comprovadas em busca de resultados milagrosos.

Canabidiol e ácido folínico: uso ainda experimental

 

O canabidiol (CBD) é frequentemente citado como potencial aliado no tratamento do autismo, mas os estudos atuais apresentam resultados inconsistentes e de baixa qualidade metodológica.
Por isso, a SBNI considera o uso experimental, recomendando que, caso seja prescrito, o médico formalize um termo de consentimento com a família.
Situação semelhante ocorre com o ácido folínico, cuja eficácia ainda depende de novos estudos com maior amostragem e rigor científico.

Vacinação e responsabilidade médica

 

A nova diretriz reforça que vacinas não causam autismo — uma informação essencial para combater a desinformação que ainda circula nas redes.
Profissionais de saúde devem orientar as famílias a manter o calendário vacinal atualizado e a buscar informações em fontes confiáveis.

Conclusão: o papel do médico diante das novas diretrizes

 

A atualização da SBNI reforça a necessidade de um olhar clínico cuidadoso, baseado em evidências e livre de modismos terapêuticos.
Cabe ao médico identificar precocemente os sinais de TEA, orientar a família e encaminhar o paciente para o tratamento mais adequado, garantindo qualidade de vida e inclusão social.
Em um cenário de constante evolução científica e alta circulação de informações nas redes, a atualização profissional é a principal ferramenta para proteger o paciente e fortalecer a prática médica ética e responsável.

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